Com coração artificial, paciente não perde alegria de viver enquanto aguarda na fila de espera por um transplante

Elessandra Cruz dos Santos, de 47 anos, é uma mulher batalhadora no sentido mais difícil da palavra. Há quase seis anos, começou sua luta contra uma insuficiência cardíaca desenvolvida após um infarto agudo do miocárdio, que a deixou sem 70% de funcionamento do coração. Hoje, ela aguarda na fila de espera para fazer um transplante do órgão e segue internada na Santa Casa de Campo Grande desde novembro de 2021 para tratar uma lesão no coração artificial que utiliza.

 

Neste estágio em que a auxiliar de cozinha aposentada se encontra, sem o dispositivo inserido cirurgicamente, a expectativa de vida do paciente é de apenas um ano, com internações muito frequentes em hospitais. Ter insuficiência cardíaca significa que o coração não está conseguindo bombear sangue o suficiente para todo o corpo, uma condição séria que pode levar à morte súbita.

 

Surgiu a possibilidade de usar esse aparelho e os médicos passaram todo o meu caso para o pessoal do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, então fui aprovada e colocaram o coração artificial”, explicou a paciente. Vale ressaltar que a insuficiência cardíaca afeta 26 milhões de pessoas em todo o planeta e é uma das maiores causas de morte no mundo.

 

O aparelho que mantém Elessandra viva, HeartMate 3, é uma pequena turbina de titânio acoplada ao coração doente. Ainda pouco utilizado no Brasil, ele funciona como uma alternativa ao transplante para quem precisa de um coração novo, já que ajuda a eliminar os sintomas da insuficiência cardíaca e garantir mais anos de vida para o paciente que espera um órgão novo.

 

Segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), o número de doadores de órgãos em 2021 foi 4,5% menor que o registrado em 2020 e, claro, o impacto da COVID-19 é evidente. O que gera um cenário preocupante, já que de acordo com os dados divulgados pelo Ministério da Saúde no último ano, o Brasil registra uma fila de 53.218 pessoas aguardando por um transplante atualmente.

 

Também não há um registro oficial sobre o número de pessoas que utilizam algum tipo de coração artificial no Brasil, mas estima-se que apenas 40 pacientes possuem algum dispositivo em todo o país. Esse número pequeno ao mesmo tempo se deve por conta do alto custo do equipamento, que chega a valer 500 mil reais e que, atualmente, não é custeado nem pelo Sistema Único de Saúde (SUS), nem pela maioria dos convênios.

 

Diante desse cenário desesperador, Elessandra encontra forças para continuar batalhando na alegria de viver e conforto na gratidão. “Enquanto existir vida, tem que existir esperança. Estou aqui há cinco meses, se eu tiver que esperar mais cinco meses eu vou esperar. Quero muito viver porque a vida é especial, não importa o tempo que demore, vou continuar sem desanimar e sem desistir”, revelou.

 

Todo esse tempo de internação fez com que a auxiliar de cozinha aposentada refletisse na sua situação de pacientes que, assim como ela, se encontram na fila de espera para um transplante. “São dias de superação, porque não é fácil para quem está como eu estou, e não são poucas pessoas. É difícil suportar a dor, a distância da família e principalmente saber que se não surgir nada você pode partir também. É como se você tivesse constantemente se adaptando a vida”, ressaltou.

 

“Sei que não é fácil ficar dentro de um hospital, mas se você desanima, a tendência é piorar, se você se deprime, a tendência é partir. Já vi pessoas aqui que se foram, que não conseguiram aguentar e esperar. Falo para que tenham fé. Têm os médicos e enfermeiros que estão lutando pela gente constantemente e que estão o tempo todo tentando nos animar”, complementou. “O que me move é o meu maior desejo: poder voltar para a casa com um coração novo”, finalizou Elessandra.